Batatas infelizes

22 de novembro de 2012
Ontem eu e meus coleguinhas queridos saímos mais cedo da aula de Ética, Estética e Comunicação por motivos de estar chata. Normalmente é a minha cadeira favorita, porque o professor divaga loucamente sobre as coisas da vida e eu acho isso divertido, mas ontem havia apresentações de trabalho, então quem se importa?

Como eu disse, saímos mais cedo, e não somente por a aula estar chata, mas também por nossas barrigas roncarem em uníssono. Corremos (sim, corremos) para o prédio 1, o prédio das comidas boas e gigantes e que compensam o alto preço que domina a faculdade, e escolhemos uma mesa. O que comeríamos já nos era óbvio: batatas fritas. Santas batatas fritas daquele prédio, hein. O preço não nos faz faltar dinheiro para voltar para casa e vem uma quantidade ignorante daquele conteúdo amarelo e engordurado.

Pedimos mais ou menos às nove horas (da noite, né), mas já havia se passado quase meia hora e nada das delícias chegarem. Então o jeito foi ir lá dar uma reclamadinha básica da situação, até mesmo porque os ônibus saem, a maioria, às dez horas. Teríamos então menos de meia hora para, em quatro pessoas, devorar enlouquecidamente as senhoras batatas fritas.

E foi exatamente isso que aconteceu: mal chegou o prato cheio, cheinho, cheião, que fomos logo nos atracando para cima das coitadas que nada tiveram de culpa para estarem ali, mortinhas, na nossa frente, e assim as devoramos como animais famintos. Aí essa devoração se deu do jeito da preferência de cada um, seja com maionese (eca), ketchup (mais ou menos eca) ou mostarda (muito eca). O que era comum para todos era a quantidade exagerada e absurda de sal. Uma delícia perigosa.

Comemos, nos empanturramos, enchemos a cara de Coca. Por último tivemos de ir quase que correndo para o paradão de ônibus, e tudo se seguiu na mais perfeita ordem. Peguei ônibus, fui para casa, fiquei na internet, fui dormir.

Aí acordei. Acordei com uma sensação estranha, como se algo precisasse urgentemente sair de mim, como se eu estivesse grávida por todo o corpo (desculpa, não pensei em comparativo melhor). Permaneci na cama, com aquele mal estar que não me fazia entender o porquê. Achei então que se eu colocasse um travesseiro sobre a barriga e pressionasse fosse me causar algum alívio, mas nada fez. O que não me impediu de continuar todo o tempo com o travesseiro pressionado, ainda achando que talvez uma hora eu resolvesse melhorar daquela sensação por causa disso.

Enfim, fiquei tanto naquele lenga-lenga entre acordar direito e levantar, que, quando de fato levantei, eu corri. Para o banheiro. E - parte nojentinha - se foi toda a batata animal do dia anterior descarga abaixo. Mas não me bastou ter que acordar mal, tive que ficar desse jeito o dia todo. Quero dizer, não continuo parecendo que tenho bebês querendo sair de mim por todo o corpo, mas continuo com um mal estar bem chatinho.

E to passando o dia como uma velha sem dentes, à base de chás e bolachinhas e barrinhas de cereal.

Postado primeiro no meu Tumblr

Das coisas que eu jurava ter talento - circo

11 de novembro de 2012
Quando criança, a visão que temos de mundo pode ser algo bem bizarro, tanto por falta de informação (quem lia ou via jornal quando tinha 5 anos? por favor né), como pela maravilhosa excessiva imaginação, fatores esses quais fui muito bem agraciada quando menor. Pensando nisso, resolvi fazer uma série de posts com os talentos que eu jurava ter, mas que não batiam nem um pouco com a realidade.

Circense
Eu sou uma admiradora à distância do circo. Isso pode soar estranho, mas é verdade. Não lembro uma vez de ter ido assistir algo relacionado a isso que não fosse na escola. Mesmo assim, sempre brilharam meus olhinhos perante a ideia de saltitar e pular e rolar e fazer coisas mil sem cair. Achava (e ainda acho) aquilo uma maravilha, que nada podia ser melhor (lembrando que, tudo o que eu sabia de circo, sempre vi através da tevê e afins). Aí olhava aquelas pessoas abrindo spacatto a metros de altura, como se não houvesse amanhã, aquela gente com roupa colorida e cara pintada, em cima de uma perna de pau, fazendo tudo aquilo. Ai, coisa mais linda.

Quando eu me colocava no lugar de algum deles, eu pensava que facilmente morreria se tentasse fazer qualquer manobra daquelas, ou que pelo menos ficaria com qualquer parte dentro de mim quebrada (não tinha muita noção de corpo humano e suas funções). Mas tinha uma coisa, uma coisa que eu pensava ser a menos dificultosa, talvez não tão brilhante quanto saltar por cima de quatrocentos elefantes encarreirados apenas com um impulso, mas que ainda fosse tão emocionante quanto.

Fitas. Fitas coloridas. Ah, como eu sempre amei aquilo. E era o que eu facilmente conseguia me imaginar. O que pode ser tão difícil em se dependurar em fitas? Eu já era uma macaca por natureza, que subia em qualquer árvore que via pela frente, o que seria de diferente uma fita se não uma árvore mais flexível e colorida?

Não que eu pensasse em realmente um dia bater na porta (do treiler) dum circo e dizer "ô moço, tem vaga feminina infantil pra corda? eu tiro boas notas e sou boa aluna, deeeixa, pufavô?", mas ficava pensando no "e se?". Mesmo assim, treinava do jeito que dava. E, aqui, respeitável público, apresento o meu lado B, a minha face pestinha que poucos conheciam: eu treinava com as cortinas do quarto dos meus pais (ainda bem que eles não leem meu blog). Eu era leve como pena, magricela como bicho-pau, a versão real da Olívia Palito. Não fazia a menor diferença ter aquele peso extra sobre a cortina, então subia até bater a cabeça no teto, e descia sempre de alguma maneira diferente. Usava a cortina como meio de transporte para subir até o topo do guarda roupa, onde eu me sentia rainha daquele lugar. Ou fazia algo à la Tarzan, já que naquela época havia duas camas no quarto deles (uma reserva pra eu e minha irmã, caso quisséssemos por algum motivo dormir lá), pulando de uma cama para outra. 

SIM, eu fazia isso. Todos os dias, quando meus pais não estavam presentes. E, enquanto eu me achava A guria do circo, também não tinha a menor noção de que estava em fase de crescimento e que aquela cortina, hora ou outra, não iria mais aguentar o meu peso pena e algum dia iria se partir. (E aconteceu isso, mas pus a culpa toda numa guria mais velha que eu que tinha aparecido lá em casa, justo naquele dia. Tadinha.)

A aparência importa sim

5 de novembro de 2012
É sempre a mesma coisa quando eu vou para a Feira do Livro: nunca encontro o que eu quero. O motivo para isso não está na (falta de) variedade de livros, muito menos na quantidade. Essas duas coisas têm lá em tamanha proporção para abastecer boa parte da cidade¹, sedenta por histórias e novas aquisições. Mesmo assim, viro e reviro aquelas tendas de ponta-cabeça e nada sai.

Por quê?, você, caro leitor, perguntaria. Numa resposta simples e prática, respondo: sou pobre. Não paupérrima a ponto de me confundirem com mendiga ou criança de sinal (embora a magreza fruto de meu metabolismo rápido possa indicar semelhança), não, não chego a isso. Sou pobre mediana, como grande parte da população e, assim sendo, não me dou ao luxo de gastar horrores com livros. Tenho bibliotecas à mão como pronto-socorro literário, então gasto o dinheiro que tenho com coisas de urgência maior (comida na faculdade ou apontadores fofinhos, por exemplo).

Enfim, sendo pobre, vou na parte que me é destinada, que na verdade é todo e qualquer lugar onde esteja escrito um "promoção!", "saldo de livros", ou o maravilhoso "um é tanto, dois é um tanto e pouquinho". Essas caixas de promoções vem separadas, sempre na margem lateral do estande, bem apagadas para os lançamentos brilharem e serem vendidos. Mas não me importo, apenas não levanto a cabeça para o que está em voga e mantenho foco nas caixas escondidas. Aí, meus amigos, é hora de garimpar. E cês sabem o que é um garimpo, né? São horas tentando procurar um tesourinho que talvez nem exista, e se existir, pode estar lá no fundinho, atrás daquele livro de saúde dos anos 80 que ninguém quer.

Aliás, a maioria desses livros de promoção são os que ninguém quer. As pobres caixas alheias aos estandes estão cheias de coisas repetidas que obviamente não tiveram boa saída ou daqueles livros de bem estar que falam sempre as mesmas coisas (como o programa Bem Estar das manhãs da Globo, by the way). Quando tem alguma literaturazinha perdida no meio, é justo aquela que não faz "meu tipo". Aí tem coisas espíritas, auto-ajuda, e capas feias com títulos feios. Esses últimos são na verdade os que mais me desencantam.

Bem, antes de qualquer coisa, entenda isso: eu não me preocupo se a capa tá rasgada, se tem mancha de café, se já foi restaurado mais de dez vezes. Isso é a coisa mais normal do mundo, ainda mais para uma frequentadora de bibliotecas com estantes cheias de pó no lugar das livrarias (que cheiram a livros novos). Então, não ligo se o livro tá todo acabado quando eu o quero para ler. Até mesmo porque, um livro que, agora, é todo caidinho, velho, marrom de tanto de ser folheado, e mesmo assim tem todo seu charme (lembrando que ainda falo na parte visual de toda a questão), quando recém feito, provavelmente deve ter levado à loucura quem o tivesse em mãos. Ou seja, não é questão da condição que se encontra o livro (eu tinha me interessado num livro de 1955 sobre a Alemanha nazista e parecia que eu iria morrer ali mesmo se inalasse mais alguns segundos aquela poeira) e sim de como foi feito.

Mas mesmo vendo zilhões de coisas desinteressantes por onde eu procurava, não desisti e caminhei a tarde inteira na Feira. Acho até que visitei todas as bancas que lá tinham. Aí, numa delas (que eu não lembro o nome agora), meus olhinhos brilharam. Tinha edições com umas carinhas mais decentes. E o preço mais decente ainda. Deu então de eu bater os olhos nuns livros cujos autores e títulos nunca tinha ouvido falar na minha vidinha, mas sendo as capas bonitas, levei com muito gosto (na verdade verdadeira da coisa, as capas nem são tão bonitas assim - bem simples até -, mas achei interessante o recorte que tinham). Assim pelo menos não voltei pra casa de mãos abanando.

Alguém já ouviu falar de algum desses nomes? Porque eu não. E esse é o rabo majestoso do Hector s2

Moral da história: eu procurava por livros clássicos que estavam na minha lista de livros-que-tem-na-biblioteca-mas-quero-ter-pra-mim. Caminhei, caminhei e caminhei, não achei nenhum, então levei qualquer capa-bonita que apareceu na frente. Melhor eu me espertar e procurar em sebos que ganho levo mais.

¹: eu não faço a mínima ideia de proporção, mas tenho certeza que a quantidade de livros que tinham lá não abasteceria nem metade de uma Porto Alegre.

A aranha

1 de novembro de 2012

Calor insuportável. Pessoas tomando sorvete como se fosse água, gente se abanando, todo mundo afastado. Quanto menos calor humano melhor. Não, quanto mais sombra melhor. E sombra era o que eu não encontraria caso continuasse com a ideia de seguir o caminho até em casa à pé e não entrasse naquele ônibus que recém havia chegado na parada.

Entro, sento no ônibus, abro meu livro. Estou lendo Lolita, a tão polêmica obra de Nabokov. Leio um trecho, faço umas manobras com as mãos a fim de pegar a água na bolsa sem bater na mulher ao lado e não derramar nada em cima do livro emprestado da biblioteca. Entre um trecho aqui, um gole acolá, vou sacolejando dentro do coletivo.

"(...) Já haviam digerido o sorvete, estava à espera de uma grande refeição e já começava a impacientar-se". Nesse trecho, justo nesse trecho, eu reparo um movimento estranho do lado da minha perna. Ignoro e releio a mesma parte de antes. O pequeno vulto se remexe e então me vejo obrigada a descobrir o que está acontecendo. Quando abaixo minha cabeça, ela está lá. Subindo, devagar e ao mesmo tempo desesperada, à procura de algo que não saberia definir. Entro em pânico, vejo suas garras alongadas à frente da pequena cabeça se movimentando sem parar, tateando a vítima. Ela sobe, eu me desespero. Ela prossegue o caminho, eu vejo a morte. E, no próximo passo que ela der, assim pensou eu, mato essa aranha sem dó. Mas não tinha como. A mulher ao meu lado era espaçosa, eu tinha uma bolsa entre meus braços me imobilizando e ao mesmo tempo não queria fazer escândalo. É só uma aranha, diriam as velhinhas. Mas eu sei que não era só mais um aracnídeo que povoa esse mundo em cada entranha onde possa fazer ninho. Claro que não é somente isso. Todas têm alguma origem demoníaca, fazem parte de alguma convenção onde o veneno mortal lhes é distribuído logo ao nascer. E eu tinha um  desses seres de outro nível, de outro mundo, na minha frente.

Não podendo matá-la, fiz o óbvio de assoprar tão forte, como o lobo mau contra a frágil casinha de palha,  a ponto de fazer voar a aranha assassina. Me vi livre, mas ainda não me senti confortável. Havia perdido minha inimiga de vista, como poderia sossegar? Conferi meus braços, pernas, a lateral do ônibus. Aí eis que ela surgiu. Toda maligna, triunfante, subindo em um teia fina até minha bolsa. Entrei em desespero. Onde eu a ponho? Como eu a mato? Balancei a bolsa, mas não adiantava muita coisa. Ela insistentemente continuava a subir e alçar suas garras cada vez mais alto. Então, de súbito, tive a genial ideia de por no chão aquilo em que a infeliz se agarrava, fazendo a pequena monstra também se deitar ao solo do ônibus. Dito e feito. Lá estava ela, agora em desvantagem, por estar perto de meus pés. Em outro momento eu sentiria pena, mas ali, dentro daquele ônibus, me senti vitoriosa ao cobrir a cabeça da aranha com a sola de meu All Star. E não retirei meu pé do lugar até a hora de descer.
 

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